quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Bienal foge de nomes de peso e orquestra reação às manifestações

COMPARTILHADO DA FOLHA DE SÃO PAULO -  SILAS MARTÍ


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Desde que o britânico Charles Esche e sua equipe de curadores vieram ao Brasil para trabalhar na Bienal de São Paulo, muito mistério ronda a 31ª edição da mostra, que começa em setembro.
Mas o cartaz da exposição, pendurado numa sala do pavilhão do parque Ibirapuera, já dá uma ideia do que vem por aí —são pessoas carregando uma cabana, mas só suas pernas aparecem, e eles não enxergam aonde vão.
"É uma torre aberta, uma forma icônica", diz a espanhola Nuria Enguita Mayo, uma das curadoras, sobre o desenho do indiano Prabhakar Pachpute, que ilustra o cartaz. "Eles não podem ver, então não sabem aonde vão, nem como ou quando. Só sabem que estão indo juntos."
Zanone Fraissat/Folhapress
Charles Esche, curador da Bienal de São Paulo
Charles Esche, curador da Bienal de São Paulo
Esche vê aí uma metáfora para seu método "orgânico" de trabalhar. Fugindo da "obsessão por nomes" e dos "artistas quentes do momento", ele adianta que a Bienal terá cerca de 80 projetos, sendo que cada um reúne uma série de artistas que trabalham em grupo em vez de sozinhos.
"Isso é arriscado. É menos pautado pelo mercado e passa bem longe das feiras de arte", diz Esche. "Mas é dessa forma que vamos poder falar das coisas que não existem."
Esse, aliás, é o nome da 31ª Bienal. "Como Falar de Coisas que Não Existem", na opinião dos curadores, será uma reação à crise de representatividade nas sociedades e governos contemporâneos, ou o motor da indignação que detonou as ondas de protestos de Istambul a São Paulo.
Na contramão da última Documenta, em Kassel, na Alemanha, e da Bienal de Veneza do ano passado, que questionaram o que pode ser visto como arte, exibindo desde meteoritos a trabalhos de doentes mentais, a mostra paulistana vai tentar mostrar "o que a arte pode fazer".
CRISE E RAIVA
"Uma das coisas que a arte pode fazer é lidar com o desconhecido, territórios de incerteza. Também ajuda a ver as coisas que não existem e como não ser controlado só por visões da economia", diz Esche. "Há uma rigidez do pensamento na nossa época que gera uma crise existencial. É essa raiva que vimos nos protestos pelo mundo."
Dessa forma, a Bienal quer fugir do modelo enciclopédico que vem orientando as grandes mostras, de Kassel a Veneza, para se transformar numa câmara de ressonância —talvez— da "voz das ruas".
Mas é cedo para especular. "Não estamos tentando ser diferentes só por ser diferentes. Não é uma tentativa quixotesca de fugir do que é a Bienal", diz Esche. "A diferença está no modo de reagir à situação contemporânea."
Nesse ponto, Esche já avisa que esta não será uma Bienal de nomes que já entraram para o cânone das artes visuais no Brasil e no resto do mundo -ou seja, nada de medalhões como Hélio Oiticica, Lygia Clark e Lygia Pape deve aparecer no pavilhão.
"Esses artistas já foram digeridos, já temos no corpo um conhecimento dessa obra", diz a israelense Galit Eilat, do time de Esche. "Já não vemos nada disso como exótico."
Exótico ou não, os curadores mantêm segredo sobre os nomes da mostra, adiantando que os brasileiros terão presença maior do que artistas de qualquer outro país.
Divulgação
Cartaz da 31ª Bienal de São Paulo, criado pelo artista indiano Prabhakar Pachpute
Cartaz da 31ª Bienal de São Paulo, criado pelo artista indiano Prabhakar Pachpute
Mas, além de Prabhakar Pachpute, que fará uma residência artística em Minas Gerais e deve criar um mural no pavilhão inspirado pela extração de minério, a Bienal só confirmou até agora a escalação do libanês Walid Raad.
Um dos nomes mais respeitados no circuito global e voz mais poderosa da arte do Oriente Médio, Raad também vai desenvolver um novo projeto em São Paulo, investigando as relações entre a comunidade árabe e toda a produção artística da metrópole.
Também já havia vazado o nome do israelense Dor Guez, que trabalha na mesma linha de Raad, investigando a história da diáspora palestina.
É tão grande o segredo em relação aos outros que a arquitetura da mostra está sendo pensada sem as obras. Esche só diz que nesta primeira Bienal depois da morte de Oscar Niemeyer, há dois anos, a ideia é "devolver a energia" ao lugar, "um modernismo que virou história".

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Arte Contemporânea é uma farsa: Avelina Lésper


Com a finalidade de dar a conhecer seus argumentos sobre os porquês da arte contemporânea ser uma “arte falsa“, a crítica de arte Avelina Lésper apresentou a conferência “El Arte Contemporáneo- El dogma incuestionable” na Escuela Nacional de Artes Plásticas (ENAP)sendo ovacionada pelos estudantes na ocasião.
 A arte falsa e o vazio criativo
A carência de rigor (nas obras) permitiu que o vazio de criação, o acaso e a falta de inteligência passassem a ser os valores desta arte falsa, entrando qualquer coisa para ser exposta nos museus 
A crítica explica que os objetos e valores estéticos que se apresentam como arte são aceites em completa submissão aos princípios deuma autoridadimpositora. Isto faz com que, a cada dia, formem-se sociedades menos inteligentes aproximando-nos da barbárie.
Ready Made
Lésper aborda também o tema do Ready Madeexpressando perante esta corrente “artística” uma regressão ao mais elementar e irracional do pensamento humano, um retorno ao pensamento mágico que nega a realidadeA arte foi reduzida a uma crençafantasiosa e sua presença em umero significado. “Necesitamos de arte e não de crenças”.
Génio artístico
Da mesma maneiraa crítica afirma que a figura do “génio”, artista com obras insubstituíveisjá não tem possibilidade de manifestar-se na atualidade“Hoje em dia, com a superpopulação de artistas, estes deixam de ser prescindíveis qualquer obra substitui-se por outraqualqueruma vez que cada uma delas carece de singularidade“.
status de artista
A substituição constante de artistas dá-se pela fraca qualidade de seus trabalhos, “tudo aquilo que o artista realiza está predestinado a ser arte, excremento, objetos e fotografias pessoais, imitações, mensagens de internet, brinquedos, etc. Atualmente, fazer arte é umexercício ególatra; as performances, os vídeos, as instalações estão feitas de maneira tão óbvia que subjuga a simplicidade criativaalém de serem peças que, em sua grande maioria, apelam ao mínimo esforçcuja acessibilidade criativa revela tratar-se de uma realidade que poderia ter sido alcançada por qualquer um“.
Neste sentido, Lésper afirma queaconceder o status de artista a qualquer umtodo o mérito é-lhe dissolvido e ocorre umabanalização. “Cada vez que alguém sem qualquer mérito e sem trabalho realmente excepcional expõea arte deprecia-se em sua presença e concepçãoQuanto mais artistas existirem, piores são as obrasA quantidade não reflete a qualidade“.
 Que cada trabalho fale pelo artista
O artista do ready made  atinge a todas as dimensões, mas as atinge com pouco profissionalismo; sfaz vídeo, não alcança os padrões requeridos pelo cinema ou pela publicidade; sfaz obras eletrónicasmanda-as fazersem ser capaz de alcançar os padrões de um técnico mediano; senvolve-se com sons, não chega à experiência proporcionada por um DJ; assume que, por tratar-se de uma obra dearte contemporânea, não teporquê alcançar um mínimo rigor de qualidade em sua realização.
Os artistas fazem coisas extraordinárias e demonstram em cada trabalho sua condição de criadoresNem Damien Hirst, nem Gabriel Orozco, nem Teresa Margolles, nem já imensa e crescente lista de artistas o são de fato. E isto não o digo eu, dizem suas obras por eles“.
 Para os Estudantes
Como conselho aos estudantes, Avelina diz que deixem que suas obras falem por eles, não um curador, um sistema ou um dogma. “Suaobra dirá se são ou não artistas e, se produzem esta falsa arte, repito, não são artistas”.
O público ignorante
Lésper assegura que, nos dias que correm, a arte deixou de ser inclusiva, pelo que voltou-se contra seus próprios princípios dogmáticos e, caso não agrade ao espectador, acusa-o de “ignorante, estúpido e diz-lhe com grande arrogância que, se não agrada é por que não apercebe“.
O espectador, para evitar ser chamado ignorante, não pode dizer aquilo que pensauma vez que, para esta arte, todo público que não submete-se a ela é imbecil, ignorante e nunca estará a altura da peça exposta ou do artista por trás dela.Desta maneira, o espectador deixa de presenciar obras que demonstrem inteligência”.
Finalizando
Finalmente, Lésper sinaliza que a arte contemporáneé endogámica, elitista; com vocação segregacionista, é realizada para suaprópria estrutura burocrática, favorecendo apenas às instituições e seus patrocinadores. “A obsessão pedagógica, a necesidade de explicar cada obra, cada exposição gera a sobre-produção de textos que nada mais é do que uma encenação implícita de critériosuma negação à experiência estética livre, uma sobre-intelectualização da obra para sobrevalorizá-la impedir que a sua percepção seja exercida com naturalidade“.
A criação é livre, no entanto a contemplação não é. “Estamos diante da ditadura do mais medíocre”
fonte: Vanguardia