quarta-feira, 27 de novembro de 2013

ANA MARIA MACHADO | PRESIDENTE DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

ANA MARIA MACHADO | PRESIDENTE DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

“O Brasil é um país moderno, mas ainda muito desigual”

Ana Maria Machado, presidente da Academia Brasileira de Letras: "A cultura da desigualdade entre nós é arcaica"

COMPARTILHADO DE EL PAÍS -  Río de Janeiro 26 NOV 2013 

Ana Maria Machado.
Ela é a segunda escritora, depois de Nélida Piñon, e a primeira representante da literatura infantil a presidir, há uma década, a Academia Brasileira de Letras, fundada pelo gênio Machado de Assis. Aos 72 anos,Ana Maria Machado é também um monumento literário nacional (possui o prêmio Hans Christian Andersen, equivalente infantil do Nobel) e publicou mais de cem livros, embora também tenha trabalhado como jornalista durante seu exílio após o golpe militar, razão pela qual recebe como uma boa notícia o nascimento do El País em português. “Ele nos revelará que estamos mais próximos do que pensamos”, afirma.
Entrar para o encontro no austero edifício da Academia, fundada em 1897, é como pisar na representação cultural e literária de um país que se sente um império. “Somos metade da América Latina”, responderá Machado à pergunta de se os brasileiros deveriam aprender espanhol, ou se os demais latino-americanos deveriam aprender português.
No interior do edifício, os acadêmicos – chamados de “imortais”, por se tratar de um cargo vitalício – andam com a consciência de serem alguém e com uma elegância e amabilidade que chegam a causar estranheza a um europeu.
O galanteio é de alta diplomacia. O jornalista é esperado por um funcionário que o acompanhará como que pelos claustros silenciosos de um monastério, indicando com um gesto de autoridade que o convidado não pode perder tempo em trâmites identificativos. Vai repetindo: “Está sendo esperado pela presidente”.
Assim é até chegar ao elegante assessor de imprensa, Antonio Carlos Athayde, que foi adido cultural da Embaixada do Brasil em Buenos Aires e mantém um ligeiro acento portenho em seu espanhol perfeito.
Ele me apresenta a vários acadêmicos, todos magnificamente trajados, que também esperam uma audiência. Já conhecem o projeto da edição do El País em português. Eles o elogiam, e o fazem falando espanhol.
Quando chega Ana Maria Machado, carregando sua figura elegante, todos se põem de pé. Ela me cumprimenta com dois beijos e me avisa que antes receberá um acadêmico, porque nosso encontro era às 15h30, e faltam 20 minutos. Ao ouvido, Athayde me sussurra: “A pontualidade é sagrada para ela”.
Apesar de sua biografia cultural e acadêmica de prestígio, com vários doutorados, a autora de Alice e Ulisses foi presa durante a ditadura, em 1969. Instalou-se no Reino Unido e na França durante a ditadura militar e voltou ao Brasil em 1972, onde fundou, sete anos depois, a primeira livraria dedicada à literatura infantil, com o nome de Malasartes.
Durante nossa conversa, os telefones não tocam e nenhuma secretária entra com recados. Eu lhe pergunto se ela vê algum simbolismo especial no fato de o maior jornal em língua espanhola ter decidido apostar no português, no Brasil: “Eu vejo isso como a culminação de simbolismos que reforçam nosso caráter ibérico. Nossas tradições, história e paixões. Tradições de lutas, mas também de tolerância com os outros povos. É uma história de aceitação dos mouros, dos judeus, com aquela carga de conversões fingidas, de mudanças de nomes, a fim de se salvar. História de uma triste Inquisição, mas também de revolta contra ela, de denúncia”.
A acadêmica insiste que as diferenças são menores que “as semelhanças”, porque temos um “substrato comum que facilita um entendimento, que é feito de histórias de sangue, dolorosas, feias, mas também de lutas pela liberdade”.
Nesse cruzamento de leituras nos dois idiomas irmãos, Machado vislumbra para o futuro um enriquecimento mútuo “ao nos lermos e conhecermos melhor”.
Qualifica a aposta jornalística de “didática” e considera “irresistível ler o mesmo texto em duas línguas que quase se entendem”, já que a leitura de um jornal, e ainda mais se for bilíngue, pode ser surpreendente. Ela lembra que, quando da introdução da nova ortografia do português, em princípio houve estranheza, mas depois, graças aos jornais, ela foi aceita com naturalidade.
Ela menciona com prazer que as relações entre a Academia Brasileira de Letras e a Real Academia da Língua Espanhola são excelentes, embora sejam duas instituições muito diferentes. A brasileira, com apenas 40 membros, foi criada sob o padrão da Academia Francesa, a qual, além de se dedicar ao fomento e defesa do idioma com uma vocação altamente lexicográfica, como ocorre na Espanha, é também uma representação da alta cultura do país.
Machado sente e vive as coisas com paixão. E quase se emociona, orgulhosa, quando destaca a positiva anomalia da literatura infantil brasileira, que tem uma densidade cultural e literária sem paralelo em outros lugares, inclusive na Europa, com exceção do Reino Unido.
A razão é que isso começa com a tradição de Monteiro Lobato, “um rebelde que lutou durante a ditadura de Getúlio Vargas” e criou uma geração de escritores que surgiria 20 anos mais tarde. “Nós nos criamos sobre os ombros dele”, diz.
Se a literatura infantil brasileira possui hoje essa qualidade reconhecida por todos é porque o que amedrontava a ditadura eram o cinema, o teatro e a música. Os livros para crianças passavam praticamente despercebidos. “Entramos naquela literatura para poder dizer coisas com liberdade, e não trabalhávamos com crianças. Viemos do jornalismo, do cinema, da universidade. Eu mesma acabava de fazer o meu doutorado sobre Guimarães Rosa, dirigida por Roland Barthes e que acabei de escrever durante meu exílio em Paris”, conta.
Acrescenta que a literatura infantil no Brasil não se cria, como em outros lugares, a partir das exigências do mercado editorial voltado para as escolas, e sim como literatura propriamente dita, razão pela qual os adultos a leem com prazer.
Durante a conversa, adentramos a velha história sobre o que é o português do Brasil – que é e ao mesmo tempo não é uma nova língua.
Machado explica que o fato de os portugueses verem sua língua cada vez mais como o “português europeu” já é reconhecer que o do Brasil é, de alguma forma, outro português, falado por muito mais gente e com características especiais, que consistem na grande influência da tradição linguística africana e indígena. “A africana privilegia as vogais, que são mais pronunciadas, enquanto que o português europeu tende a comer as vogais, o que o faz parecer mais duro que o brasileiro.” A tradição indígena, que é enorme no português do Brasil, “tende a aglutinar, cria derivados, prefixos, inventa uma enormidade de palavras. Milhares de nomes de cidades brasileiras são de origem indígena”.
Por último, o português do Brasil é do século XVI, quando se falava mais devagar, se pronunciava de outra forma. Camões, por exemplo, usava rimas que em português lusitano não rimam, mas aqui, sim.
Machado, além de ser um monumento literário, não esconde sua paixão pela política e pelas lutas em defesa das liberdades civis.
Eu lhe pergunto se falta hoje algo para o Brasil ser um país moderno, em sintonia com as grandes democracias do mundo.
“É um país moderno, mas ainda desigual. Suas instituições são surpreendentemente fortes, mas nossa democracia padece ainda de uma grande desigualdade”, diz, e acrescenta: “A cultura da desigualdade entre nós é arcaica. Baseia-se numa herança de compadrios, de burocracias, de patrimonialismos. Ainda sofremos de uma herança retrógrada”. Resume ela: “Demos passos para frente, somos uma democracia, mas ainda muito desigual”.
E, ao final, o tema inevitável da corrupção e da impunidade que domina o debate nacional. Para ela, a corrupção e a impunidade, tanto política quanto empresarial ou mesmo cidadã, têm duas origens: “A lentidão da Justiça e os baixos níveis de educação”, algo em que coloca muita ênfase. Segundo ela, é difícil criar cidadãos pensantes, que não se corrompam, com uma escola que ainda não é “de período integral” e que, portanto, não pode formar bem as pessoas. Para ela, “ter todas as crianças na escola não basta”. E sentencia: “Mente-se muito no Brasil, e é fácil acreditar nas mentiras quando a bagagem educacional das pessoas é baixa”.
Como todos os que sofreram na pele o flagelo da falta de liberdade de expressão e a amargura do exílio em busca de liberdades perdidas, Machado, na controvérsia em curso no Brasil sobre proibir ou não as biografias não autorizadas de famosos, já se posicionou a favor da liberdade de publicação. Contra os possíveis abusos, estão aí os tribunais, segundo ela.
A liberdade de expressão para ela não admite adjetivos. Ou é ou não é. Por isso, “quanto mais jornais e quanto mais informação, e de qualidade, melhor para a democracia”, diz.

O mapa-múndi cultural do século XXI


A pujança financeira de regiões como golfo Pérsico, Cazaquistão, Rússia ou China redesenha o panorama tradicional das grandes infraestruturas artísticasl

COMPARTILHADO DE EL PAÍS -  Madrid 4 NOV 2013 - 02:04 BRST

 
Uma maquete do museu Louvre Abu Dabi feita por Jean Nouvel. / THOMAS COEX (AFP)
Museus de bilhões de euros sob cúpulas gigantes, teatros de ópera dignos das mil e uma noites, no meio do nada ou do quase nada, franquias artísticas religiosamente pagas graças aos petrodólares ou gasodólares, festivais de cinema no golfo Pérsico artificial, lotados de estrelas de Hollywood; sofisticadas sheiks do Oriente que lideram as listas das pessoas mais influentes do mundo da arte; pintores e colecionadores chineses monopolizando o pódio do mercado nos termômetros de Londres, Miami ou Maastricht (um estudo revelou no ano passado que a China tomava dos EUA o primeiro lugar no mercado mundial de arte e antiguidades); novos museus particulares e novos festivais de cinema em locais de economia emergente como Brasil, Índia, Marrocos ou a própria Rússia... Espaços faraônicos para a música e a arte construídos por Nouvel, Foster, Gehry, Pei, Hadid e outros gênios do momento. A cultura muda de cenário, ou pelo menos, agrega novos cenários. A tradicional hegemonia do Ocidente – Paris, Roma, Londres, Berlim, Nova York e daí em diante – na tomada de decisões e na implementação de projetos culturais passou a enfrentar a concorrência do Oriente, ou, conforme se olha para o globo, da direita.
Cazaquistão, Omã, Catar, Dubai, Abu Dhabi, Índia ou Marrocos nunca ou quase nunca haviam figurado nas páginas de Cultura dos grandes meios de comunicação internacionais, nem – o que sem dúvida é muito mais importante para seus governantes – nas agendas dos principais empresários artísticos, dos grandes escritórios de arquitetura, dos programadores musicais, dos produtores e distribuidores cinematográficos que ditam a lei e até mesmo dos chefes de gabinete e de protocolo de governos e famílias reais do mundo inteiro.
A recente inauguração, com Attila, de Verdi, do Teatro da Ópera de Astana, capital multimilionária e extremamente jovem (15 anos) da República do Cazaquistão, por obra e graça do presidente Nazarbayev, é apenas o último capítulo de um fenômeno cujo horizonte parece ilimitado: a transferência planetária de enormes doses da inteligência emocional necessária para produzir projetos de autêntico cunho intelectual, ou pelo do que podemos chamar diretamente de verbas da cultura, ou seja, esses descomunais volumes de capital público e privado que, graças a acordos às claras ou por debaixo dos panos entre governantes e investidores, permitem construir novos templos da criação. E, falando em dinheiro e cultura: o novo símbolo cazaque de música lírica, em Astana, custou cerca de 500 milhões de euros (R$ 1,5 milhão).
Enquanto os museus da velha e outrora absoluta Europa tentam de tudo para aguentar os golpes da crise – tirando seus recursos do armário, trabalhando em rede ou concluindo acordos salvadores com patrocinadores particulares para saírem do atoleiro (antes os mecenas se chamavam Médici, e agora se chamam Banca) –, os emires e os sheiks do Oriente Médio erguem babilônias culturais com seus talões de cheques.
O novo símbolo da opera cazaque, em Astana, custou cerca de 500 milhões de euros
Esse é o caso da sheik Mayassa Bint Hamed bin Khalifa Al Thani. Essa mulher de 30 anos, que estudou na Escola de Ciências Políticas de Paris e na Universidade Duke (Carolina do Norte, EUA) antes de completar sua formação na sede da Unesco, em Paris, reúne uma dupla condição: ser a mais inteligente da classe e ser filha do ex-emir do Catar Hamed bin Khalifa e de uma de três mulheres dele, Mozah bint Nasser al-Missned, também sheik, presidente da Fundação Catar (um motor de expansão do Catar no mundo) e sem dúvida a mais charmosa primeira-dama oriental.
Foi a sheik Mayassa quem tornou possível a inauguração do Museu Islâmico de Doha, em 2008, e do Museu de Arte Moderna Árabe, em 2010
Com seus vastos conhecimentos de arte, seu dinamismo e sua evidente habilidade nos salões diplomáticos, foi ela quem viabilizou em 2008 a abertura do Museu de Arte Islâmica de Doha, assim como do Museu de Arte Moderna Árabe, em 2010, também na capital do Catar. Certamente será ela que em 2014 cortará a fita inaugural do Museu Nacional do Catar, obra de Jean Nouvel. Suas façanhas não terminam aí: a presidente da Fundação Nacional de Museus convenceu seu pai a pagar 191 milhões de euros (recorde absoluto para uma obra) por “Os Jogadores de Cartas”, de Cézanne. O Catar, dono da terceira maior reserva mundial de gás, tem sido o maior comprador mundial de arte contemporânea nos últimos cinco anos, segundo o muito confiável The Art Newspaper. Dinheiro? O gás e o petróleo, assim como os diamantes e o ouro, servem como fonte inesgotável. E a inteligência emocional? Bem, os dignitários do golfo Pérsico sabem onde e como encontrá-la: com os head hunters capazes de se deparar em Paris, Nova York ou Londres com essa cobiçada cabeça pensante capaz de criar sinergias, mobilizar contatos, atrair investidores e fabricar ou renovar conceitos, como por exemplo o intercâmbio cultural universal, a aliança de civilizações e a parceria Oriente/Ocidente através da cultura, a qual, como todos sabemos, é um passaporte para a respeitabilidade, desejado por qualquer bom governante – aquele que sabe decifrar ou intuir os saborosos dividendos políticos e econômicos que os bens espirituais conferem quando administrados com tino. Se ainda faltava alguma coisa, muitos desses ideólogos da aposta em um novo mapa-múndi cultural se formaram em lugares pouco afeitos a apostas e muito obstinados a valores seguros, como França, EUA e Reino Unido.
Jean Nouvel, ante o projeto do Louvre Abu Dhabi. / THOMAS COEX (AFP)
A jovem sheik do Catar também conseguiu convencer Robert de Niro a implantar em Doha uma filial do Festival de Cinema de Tribeca, que já teve quatro edições e leva a cada ano a Doha uma constelação de estrelas de Hollywood. Mas esse não é o único festival de cinema do golfo Pérsico: também as vizinhas Dubai (com a sua Burj Khalifa, a torre mais alta do mundo, com 828 metros) e Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, têm os seus.
E, falando em Abu Dhabi, é possível que não exista um melhor símbolo do que esse pequeno emirado árabe para designar esse processo atual que, do centrípeto para o centrífugo, está dando lugar a um frenético movimento de fichas no deslocamento da hegemonia em matéria de infraestruturas culturais.
Em 2015, o Louvre Abu Dhabi vai coroar o seu sonho de eclipsar a rival Dubai (ainda se recuperando da crise de 2008 que quase levou a cidade à falência) como farol cultural do Oriente Médio.
Mas o Louvre de Abu Dhabi não será o último sonho dos sheiks do Golfo: em 2016 eles esperam inaugurar o Museu Nacional, de Norman Foster, e em 2017 – a cereja do bolo – o maior Guggenheim do mundo, o Guggenheim Abu Dhabi, obra de Frank O. Gehry. Esses mastodontes culturais, somados ao Museu Marítimo do japonês Tadao Ando e a um grande auditório projetado por Zaha Hadid, serão os grandes atrativos da ilha de Saadiyat (Ilha da Felicidade), um verdadeiro conto oriental transformado em realidade na forma de bairro cultural, com museus, centros comerciais, hotéis e apartamentos superluxuosos e filiais de universidades europeias e americanas. O preço de Saadiyat? Cerca de € 20 bilhões